Meio enterrado

Estava voltando da casa dos meus pais quando a música começou.

Coloquei no loop. É uma mania minha — quando algo me toca de verdade, repito até extrair tudo que tem dentro. Música, pensamento, conversa. Fico em órbita ao redor do sentimento tentando entender o que ele é, e quase sempre chego perto, nunca completamente, e ele escapa no momento exato em que ia tocar com a ponta dos dedos. Como um sonho que se dissolve quando você tenta segurar.

Enjoy the Silence. Depeche Mode. Janeiro de 1990.

Eu sou de agosto de 77. Tinha treze anos quando essa música existia no mundo do mesmo jeito que eu existia — sem que nenhum dos dois soubesse muito bem o que viria depois.

E de repente, dentro do carro, voltando da casa dos meus pais com tudo que carrego hoje, ela abriu um portal.

Não para 1990. Para um menino.

Ele estava no alto de um monte. Postura ereta. Olhar fixo no horizonte. Uma força nele que eu reconheci antes de conseguir nomear — porque é uma força que conheço de dentro, que sei como é por dentro, e que faz muito tempo que não sinto assim de perto. Ele não estava esperando nada. Estava convicto. Era aquele menino que ia chegar na garota com toda a segurança do mundo, pegar nos braços, dar o beijo, pagar um sorvete e fingir ser gente grande. Que ia resolver os problemas do mundo e achava que era capaz. Que carregava um senso de justiça tão firme que fazer justiça parecia natural como respirar.

Eu o enjaulo há muitos anos.

Achei que precisava. Aprendi, de algum jeito que não consigo localizar com precisão, que ninguém é tão bom assim. Que herói é ingenuidade. Que a vida cobra uma espécie de rebaixamento gradual das expectativas, e que quem não rebaixa é iludido ou arrogante. Fui legislador, juiz e carrasco de mim mesmo — implacável, metódico, sem recurso.

O menino ficou lá dentro.

Mas ele não morreu. É isso que a música me mostrou dentro do carro.

Ele está meio enterrado — essa foi a palavra que encontrei, e não vou trocar por outra mais bonita porque é a certa. Meio enterrado não é morto. É alguém que ainda respira, que ainda tem postura ereta e olhar no horizonte, mas que aprendeu a não fazer barulho porque barulho tem custo.

A música acabou e começou de novo.

Fiquei pensando no sábado à tarde — não um sábado específico, mas todos eles ao mesmo tempo. A calçada, o carro sendo lavado com música saindo do toca-fitas. A tarde no fliperama, as mãos no controle, os amigos do lado, e a esperança idiota e perfeita de que alguma garota da escola apareceria e talvez olhasse. A noite de bicicleta pela rua, sem destino, sem pressa, sem nada que precisasse ser resolvido antes de amanhã. A feirinha do bairro numa sexta, o cheiro do fim de tarde, a expectativa de um beijo que às vezes vinha e às vezes não vinha e de qualquer forma o mundo continuava inteiro.

Não era um mundo sem pressão. Havia Guerra Fria, rigidez, amadurecimento precoce, a oficina do meu pai com seus sonhos e sua história — mas isso era sombra de fundo, não era o centro. O centro era a agulha no disco, era o cheiro do controle de plástico do videogame, era a calçada à noite, era a convicção de que havia tempo. Que o futuro era vasto e ainda não tinha decidido o que seria.

Hoje o futuro já decidiu muita coisa.

Mas dentro do carro, com Enjoy the Silence no loop, por alguns minutos o menino desceu do monte e ficou do meu lado.

Não falou nada. Só ficou.

E eu percebi que não quero mais ser seu carrasco. Não sei ainda como soltar o que prendi com tanto cuidado durante tanto tempo. Não tenho resposta, não tenho método, não tenho data.

Mas sei que sou eu que preciso dele.

A música começa de novo.

Deixo.

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