Foi o que pensei às 4h32 da manhã quando abri os olhos e o quarto começou a se organizar ao redor de mim. Um minuto de hesitação antes de olhar o relógio — não por cautela, mas porque uma parte de mim já sabia o que ia encontrar do lado de fora do sono.
O sonho é uma pausa. Um lugar sem conta, sem coração arritmado, sem RAG quebrando às onze da noite. Quando durmo, saio. Quando acordo, volto.
E ontem o lugar para onde voltei estava pesado.
Tinha faltado ao trabalho. Não por preguiça — o corpo simplesmente não autorizou. A insuficiência cardíaca não consulta a agenda. Às vezes o cansaço começa antes do café, no trajeto entre a cama e a cozinha. Dez metros. O dia inteiro gasto ali.
Fiquei em casa e decidi produzir alguma coisa. Montei uma RAG para uso local com ferramentas de IA. Fiquei o dia inteiro nisso — testando, ajustando, errando, voltando. No final funcionou. Uma sensação rara de ter chegado em algum lugar.
Reiniciei o chat.
Não funcionou.
Qualquer pessoa que já passou um dia inteiro consertando algo que quebrou no segundo seguinte não precisa que eu descreva o que senti. Vou deixar o silêncio fazer esse trabalho.
A briga da noite anterior ainda estava no quarto. Minha esposa disse algo sobre minha paternidade, e eu que já estava no limite fui pro fundo — não por raiva dela, percebi depois, mas por raiva de mim. Se ela precisou dizer aquilo, é porque eu não havia demonstrado, em todo esse tempo, que tipo de pai sou.
Aprendi que pai é retaguarda. Entra quando precisa decidir. Não em toda chamada diplomática, não em todo detalhe do dia. Não estou dizendo que está certo. Estou dizendo que foi assim que aprendi — e que às 4h32 da manhã não sabia mais se o que aprendi ainda serve.
Fui dormir sufocado. Não meio sufocado — sufocado e meio. Com a sensação de pavor de quem olha para a própria vida e vê uma sequência longa demais de coisas que não chegaram. O trabalho que não paga as contas. As mil ideias que ficam na cabeça porque o corpo não tem energia para executar. A sensação de que minha vez já passou.
Mas aí veio um pensamento que só consigo descrever como engraçado.
Comecei a imaginar que tem alguém em algum lugar mexendo os pauzinhos. Um ser dedicando tempo e energia para garantir que minha RAG quebre no momento exato em que funciona. Que a conta vença no meio do mês. Que o streaming corte na semana em que as crianças mais precisam de distração. Que a briga aconteça justamente quando eu já não tenho reserva nenhuma.
Será que esse ser não tem mais o que fazer?
Minha vida, com todo o respeito, não é importante o suficiente para justificar tanta dedicação. Se existe alguém sabotando minha existência em tempo integral, francamente, precisa arrumar um hobby.
Ri. Sozinho, no escuro, sufocado.
Fiz uma oração. Conversei com Deus e com Jesus, pedi pelos meus, entreguei o que não cabia mais em mim. E pensei, como sempre penso quando chego no limite: não é possível que sou mais feio que os outros. Não é possível que tanta gente faz acontecer e eu não vou conseguir. Me recuso.
Dormi.
E às 4h32 abri os olhos e disse, antes de qualquer outro pensamento: voltei.
O despertador da minha esposa toca em cinquenta minutos. Ela está acordada — sei pelo silêncio do jeito que ela respira. Não mexo com ela. Ainda tem o peso da noite anterior entre a gente. Esse tipo de coisa precisa de luz do dia para ser tocado.
Fico deitado no escuro com o coração no ritmo que ele escolheu para hoje.
Voltei para cá. Para o meio do mês curto. Para o trabalho que não fecha a conta. Para o corpo que oscila. Para os filhos que vão perguntar pelo streaming. Para a RAG que talvez eu consiga consertar hoje — ou talvez não.
Não porque tenha certeza de que vai dar certo. Mas porque a alternativa é ficar parado no escuro às 4h32, e isso eu já estou fazendo — e mesmo assim o dia vai começar do mesmo jeito.
Então levanto.