Sexta-feira, 14h30

Era uma sexta-feira. Duas e meia da tarde.

Decidi voltar para casa.

Para quem olhasse de fora, o cenário diria que estava tudo bem: fim de semana chegando, família no lugar, filhos e parentes com saúde. Uma moldura bonita. O tipo de situação em que as pessoas esperam que você sorria.

Mas o que me acompanhava no caminho de volta não era leveza. Era um vazio antigo. Daqueles que não avisam quando chegam e não explicam por que ficam. Uma tristeza que não grita: ela consome em silêncio, devagar, como ferrugem.

E no topo de tudo, uma dor de cabeça física. O tipo de dor que não é doença — é uma mente que simplesmente se recusa a parar.

Em dias assim, o corpo busca o caminho mais curto para a anestesia. Para mim, esse caminho sempre teve um formato conhecido: duas cervejas geladas. Não era vício, era liturgia. Duas doses de presença imediata. Uma trégua entre o que eu sentia e o que eu conseguia aguentar.

Mas desta vez o preço era alto demais.

Por razões de saúde e por uma promessa que fiz a mim mesmo — uma dessas promessas que você faz em silêncio, sem plateia, sem aplauso —, o álcool está fora até dezembro.

Bater de frente com o desejo de beber produz um tipo específico de crueldade interna. Se eu bebo, quebro minha palavra. E quando o dinheiro está curto, a palavra que você se dá passa a ser a única coisa concreta que um homem ainda possui. Não é moral. É sobrevivência. É o que sobra quando o resto escapa. Se eu não bebo, entra em cena o ego — preciso, pequeno, azedo —, sussurrando que sou incapaz até de um prazer simples.

A mentira mais comum que se conta nesses momentos é que o problema é o álcool.

Não é.

O que me consumia naquela tarde não era abstinência. Era a falta de dinheiro. Era a sensação de que o tempo que eu quero passar com a minha família está sendo roubado por uma engrenagem que eu não escolhi, mas que preciso girar todo dia. A frustração de não conseguir gerar o suficiente para que as pessoas que amo possam respirar sem contar os dias até o próximo salário.

Queremos apenas zerar as contas. Não para ser rico. Para poder estar presente sem o peso da conta por vencer.

A gente nunca quis o dinheiro em si. Queria o tempo que ele compra.

Mas segui em frente. Cabeça latejando, vazio rondando, desejo batendo na porta. Escolhi o caminho de volta sem desviar a rota.

Mantive a palavra.

Não porque seja fácil. Não porque tenha chegado a alguma conclusão definitiva sobre a vida. Mas porque compreendi, com o tempo e com custo, que colocar no papel o que está pesando já é uma forma de não afundar. Que olhar para o caos sem fingir que ele não existe é um dos poucos atos de coragem que ainda me pertencem completamente.

A vida é um bilhete com data de validade. Pretendo honrá-lo até o fim — com dinheiro ou na escassez, com leveza ou com essa dor de cabeça de sexta-feira que insiste em lembrar que sou humano.

Deixe um comentário